De Nelson Botter Junior.
Confraria da Vila, esse era o nome. Pode-se dizer que não passava de uma espécie de clubinho fechado, uma panelinha, pois só havia quatro membros e ninguém mais podia entrar. Acontece que Henrique, Carlos, Edson e Luís gostavam de confraria. "É mais pomposo", dizia Edson. Tudo bem, ficou. E ao longo de quatro anos os encontros semanais no Vila Bar (daí o nome da confraria) se desenrolaram regados a muita cerveja Original e calabresa acebolada "no capricho", como dizia Henrique. Mesmo quando alguém estava doente ou com algum outro compromisso, dava-se um jeito de cumprir o ritual. Ninguém faltava. "A confraria é sagrada", dizia Luís.
Nem as esposas conseguiam atrapalhar as reuniões dos quatro, que aliás tinham como tema central o assunto: mulher dos outros. Essas é que valiam a pena. Todas as mulheres acompanhadas no bar passavam por uma séria observação, estudo geométrico, análise técnica de pesos e medidas, e algumas vezes rendiam até algumas abordagens mais pecaminosas. Sempre venerada e idolatrada, a mulher dos outros era tão ou mais sagrada que a própria confraria. Talvez só as juras de amizade eterna entre os quatro eram mais sagradas que tudo. "Mulher dos outros é uma vez e nunca mais", dizia Carlos. E assim a Confraria da Vila seguia firme e forte.
Mas, então, algo aconteceu...
Carlos parou de ir, assim, do nada. Pior: Luís também. Os dois, sem mais nem menos, simplesmente sumiram. Nem telefone atendiam. Henrique e Edson sentiram o baque já logo na primeira ausência dos dois. Depois, na segunda vez, o assunto era inevitável: o fim do casamento de Luís.
- O Carlos foi o pivô da separação do Luís - disse Henrique. - Você está querendo me dizer que o Carlos estava saindo com a mulher do Luís? - Não, Edson, nada disso. - Então como o Carlos foi o pivô da separação? - É que... agüenta firme agora, amigo, o que vou falar é muito chocante: o Luís tinha um caso com o Carlos. - O quê??? - É isso mesmo que você ouviu. Eles tinham um caso e a esposa do Luís descobriu... - Não pode ser, Henrique, deve haver algum engano nessa história aí. - Nenhum engano, a mulher do Luís que me contou. - Estou chocado! - É, eu também não fazia idéia desse lado dos caras. - Como isso é possível? Como? - Acho que todo mundo tem sempre algo a esconder, sei lá. - Mas espera aí... a mulher do Luís te contou isso? E desde quando vocês se conhecem? - É... bem... há um tempo já... - Não acredito, você também comia a mulher do Luís? - O que você quer dizer com "você também"? - Eu não disse isso... - Disse... Porra, Edson, não se faz de santo! Você também comia ela??? - Não, não comia... comi, mas uma vez... sabe, mulher dos outros é uma vez e nunca mais... - Caraca, tô chocado. - Somos a Confraria da Putaria, isso sim - Edson se irritou. - Mas descobrir que o Carlos comia o Luís foi foda. Ou será que o Luís comia o Carlos? Edson deu um soco na mesa indignado. - Bom, se acalma aí que vou mijar rapidinho - disse Henrique levantando-se em direção ao banheiro. Edson aproveitou para pegar o celular e fazer uma ligação. - Alô, Carlos? Seu filho da puta, miserável, patife! Satisfeito agora? Além de acabar com o casamento do Luís, você acabou com tudo! Que porra de confraria o quê! Tô falando do amor que te dei, dos momentos que compartilhamos juntos, de nossas noites de sexo apaixonado! Como você pôde me trair com o Luís, seu cachorro, como você pôde fazer isso comigo??? Me diz, o que vai ser de mim agora sem você? Nelson Botter Junior é cronista do Blônicas às terças-feiras.
Escrito por FERNANDA PORTO às 12h08
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